terça-feira, setembro 06, 2005

Deixar o rebanho à guarda dos lobos

Os lares das santas casas da misericórdia existem por esse país fora, desde a capital às vilas e aldeias da província. Os nomes variam conforme a terra onde se instalam, mas têm quase sempre a cobertura da igreja e os fumos de corrupção acompanham-nos por todo o lado.

Há menos de dois anos, um octogenário e familiar meu, residente na zona de Braga, teve de dar 10.000 euros para conseguir vaga num desses lares. A morte levou-o em menos de um mês…

Constou-me agora, que numa idílica vila da costa vicentina, as vagas no lar da respectiva santa casa também aparecem e desaparecem, de acordo com o montante que os interessados se dispõem a pagar.

Será a lei do mercado, mas é um mercado pouco transparente e dizem-me que, se for solicitado um recibo comprovativo destas verbas, as vagas desaparecem misteriosamente…

Recentemente, a Polícia Judiciária descobriu que no Hospital de Portimão se comunicava aos agentes funerários a morte dos doentes, antes de se avisar as respectivas famílias.

Estas situações só acontecem porque à frente destas instituições há hierarquias irresponsáveis e cúmplices que ninguém controla, nomeadas por compadrio. As auditorias, quando existem, não passam de formalidades burocráticas sem credibilidade.

Um país que permite este tipo de negócios com os seus cidadãos mais fracos, por quem tem a obrigação de cuidar deles, não é um estado social, é um estado em decomposição.

2 Comentários:

Às 06/09/05, 23:37 , Anonymous V. Castro disse...

Não conheço os estatutos de nenhuma das santas casas da misericórdia, mas creio saber que todas elas se atribuem o padrão de instituições de carácter social, similar ao da Santa Casa de Lisboa a qual, na circunstância, até é tutelada pelo Governo. Fico, pois, boquiaberto ao saber que, ali também, se recorre a semelhantes práticas. Digo “também” porque dois idosos que me são próximos passaram exactamente pela mesma experiência, na Covilhã e em Santa Maria da Feira, para conseguirem lugar em lares geridos por associações privadas.
Quer isto dizer a extorsão velada de dinheiro aos anciãos está, provavelmente, generalizada nos lares que se propõem acolhê-los, não escapando sequer os que ainda se intitulam santos e misericordiosos. É de bradar aos céus!

 
Às 07/09/05, 11:15 , Blogger j disse...

Hoje deixo de lado toda a carga política que estas tristes notícias acarretam, assim como todo o significado ideológico que, afinal, tudo na vida tem (parece que foi decretado o fim das ideologias, não foi?! Ando um pouco confuso!!!).
Hoje quero apenas recordar aos santos que superintendem as Santas Casas da Mesericódia o que dizia um certo Paulo de Tarso que essa gente deve ouvir, pelo menos, todos os domingos :

"...ainda que eu tivesse toda a fé,
a ponto de transportar montanhas,
se não tivesse o amor,
eu não seria nada.
Ainda que eu distribuísse
todos os meus bens aos famintos,
ainda que entregasse
o meu corpo às chamas,
se não tivesse o amor,
nada disso me adiantaria.
".
Porra!!! Será assim tão dificil entender o que está em causa?!
(jcm)

 

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